dois de copas e banho de óleo

Two of Bows — Wands, Wildood Tarot

tive um sonho duas noites atrás em que me contavam sobre uma nova terapia de integração, com propósito de conectar consigo mesmo. o slogan era “descubra seu segredo mais íntimo, descubra quem você é” e a técnica consistia em submergir numa banheira de óleos aromáticos quentes, uma vibe meio banho turco. naquela sociedade falida quem não tinha acesso aos banhos dançava seu desespero no vagão dos desesperados, na fornalha. consegui agendar um encontro com a última banhadoura local. uma mulher madura, de cabelos pretos, pele fina nos dedos e ao redor dos lábios. maneira como fui recebida não me deixou segura para o banho e mais duas pessoas estavam da sala e se comunicavam conosco através de um película de acrílico, como aquelas repartições de escritório. cada pessoa ali cumpria uma função. e cumpriram sua função ao apresentar o alto risco do efeito colateral. descobrir quem se era podia levar a uma mudança drástica. um dano irreversível. saber que vou descobrir algo quando mergulhar já dói demais, não quero descobrir. não quero tomar esse banho, falei para a banhadoura. enquanto ela me olhava nos olhos, como quem compreendesse o conflito da lucidez, aproximava sua mão do meu lado esquerdo, revelando uma seringa com a agulha que injetaria 25ml de um óleo quente na minha perna. meu corpo transpirava gotículas sólidas que formariam uma grande película sobre minha pele, imergindo meu corpo por obrigação. na hierarquia das camadas, o veneno letal. deslizei em direção ao chão, havia um desprendimento com meu corpo e as minha ações e eu só não me importava mais. fui tomada por uma vontade de fuder incontrolável. meu corpo queimava, latejava o querer-poder. olhei para aquela mulher que me acompanhava e no outro segundo já estávamos fodendo. chupei sua buceta como quem encontrara a fonte da vida e olhava aquele corpo com pele fina, sentia no toque a textura das fibras musculares. fudemos de um jeito animalesco, eu tinha a fome de quem não comia há dias. aconteceu tão rápido como se a intensidade fosse sobre uma imagem e não o real. com a mesma rapidez que fomos parar dentro uma da outra, agora já nos encontrávamos lado a lado, no chão, encostadas no mesmo banco que deslizamos abaixo. meu corpo ainda tinha um pouco de óleo na superfície, algumas gotas escorriam. sentia uma energia de fogo, como se me lembrasse da primeira vez que ouvi meus pensamentos e me assustei. tremia com arrepio da febre, um enjoo. e num movimento de refluxo, antes da sinapse completa, antes de saber, disse “sou um homem”.

poesias e textos autorais / @alinekauanacezar

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